Son Heung-Min e o valor das decisões certas

Poucos vão lembrar, mas quando Son Heung-Min foi contratado pelo Tottenham, em agosto de 2015, o sul-coreano não era o ‘plano A’ dos Spurs.

Daniel Levy e Mauricio Pochettino queriam Saido Berahino. Soa heresia dizer isso nesse momento, mas naquela época, o até então atacante do West Brom era visto como um investimento mais seguro. Afinal, já estava devidamente testado na intensa Premier League.

Mas o West Brom rejeitou a proposta final de 23 milhões de libras. Dessa forma, o Tottenham foi buscar Son no Bayer Leverkusen praticamente pelo mesmo valor.

Essa foi uma das pelo menos três oportunidades em que os caminhos de Son e Tottenham quase se separaram – e, assim, a noite épica no Etihad Stadium jamais teria existido.

Frustração e volta por cima

A segunda delas foi logo após a Olimpíada do Rio. Son vinha de uma primeira temporada frustrante pelo Spurs, com apenas 19 jogos como titular.

As dificuldades de adaptação a uma nova cultura sempre limitaram o sucesso de atletas asiáticos nas grandes ligas. Não era exatamente o problema de Son, que morava na Alemanha desde os 16 anos. Porém, sua aventura na Inglaterra não havia dado liga.

Son pediu formalmente para sair. Queria voltar para a Alemanha. Com muito esforço, foi convencido do contrário por Pochettino. O argentino acreditava fielmente no sucesso de seu novo pupilo.

O sul-coreano aceitou o desafio. E foi premiado não apenas por seu talento, mas pela sua ética de trabalho. Na temporada seguinte, marcou 15 gols entre Premier e Champions League. Em 2017-18, aumentou a marca para 16. Em seu pleno momento de afirmação na elite, veio o terceiro (e mais duro) obstáculo.

Essa já é uma história bem conhecida: se Son não fosse campeão dos Jogos Asiáticos com a seleção sul-coreana, precisaria completar 21 meses de serviço militar em seu país natal, o que lhe tiraria de pelo menos duas temporadas completas.

Em condições normais, Son sequer disputaria esse torneio. Mas ele passou a valer muito: a continuidade de sua trajetória de sucesso na Europa. Como nos contos de fadas, o final foi feliz. Son campeão e livre do Exército.

A consagração de Son Heung-Min

Todo esse árduo caminho pavimentou o auge vivido pelo camisa 7. Com três gols na eliminatória contra o Manchester City, Son Heung-Min foi o protagonista da memorável classificação do Tottenham para a semifinal da Liga dos Campeões, onde enfrentará o Ajax.

Son é totalmente alheio à vaidade das estrelas do futebol. Não tem tatuagem, está sempre com um sorriso no rosto e trabalhando duro. Um perfil que também se aplica ao campo: com Mauricio Pochettino, já fechou até linha de 5 na defesa como ala esquerdo (como na semifinal da FA Cup 17-18 em Wembley).

Mas Son também sabe ser protagonista. Sem Harry Kane, ele foi a referência do time que agora está entre os quatro melhores da Europa. Mas sempre no estilo Son: depois de fazer dois gols em 10 minutos, dedicou os outros 80 a cobrir as brechas que o Tottenham cedia pelo lado esquerdo com Danny Rose e Dele Alli. Sempre atento, sempre voluntarioso.

Son é o ídolo que todo torcedor se orgulharia em ter. E não só pelo que faz em campo. Na semana decisiva do jogo contra o City, doou mais de 100 mil euros para as vítimas do incêndio florestal na Coreia do Sul. Por essas e outras, é impossível não gostar de Son Heung-Min.

Ah, e lembra do Berahino? Pois é. Hoje está esquecido no Stoke City, 16º colocado da Championship. Como se não bastasse, chegou a passar 913 dias sem um mísero gol marcado.

No futebol, assim como na vida, vence quem toma as decisões certas. É o caso de Son. E do próprio Tottenham, que investiu “somente” 22 milhões para tal. A epopeia na Champions premia o crescimento orgânico do Spurs. E premia Son Heung-Min, alguém que já está na prateleira dos melhores jogadores asiáticos de todos os tempos.

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