Qual o futuro do futebol feminino brasileiro?

* Texto de Gabriel Esteves, em parceria com o Torcedor de Sofá

A participação do Brasil na Copa do Mundo Feminina chegou ao fim. Era uma tragédia anunciada. A equipe vinha de nove derrotas consecutivas na fase preparatória, perdeu jogadoras importantes por lesão e tinha suas principais jogadoras, Marta e Cristiane, com problemas físicos. Mas o declínio da seleção principal está atrelado a um problema ainda maior: o descaso da CBF na iniciação.

Abaixo, você pode conferir que o desempenho das seleções femininas em Mundiais de base piora ano após ano. Claro que a performance na base nunca tende a ser absoluta, já a prioridade é sempre formar. Mas a pobreza de resultados evidencia que estamos nos distanciando cada vez mais da elite quando o assunto é formação. Confira:

Campanhas em Mundiais de base

Nossas melhores campanhas datam dos primórdios do torneio: duas vezes 4° lugar em 2002 e 2004 (ainda contando com Marta e Cristiane) e 3º lugar em 2006. Até aí tudo bem, mas o nosso grande problema viria nesta década, com o boom da modalidade.

2010

Mundial Sub-20

Eliminação na 1ª fase do torneio, a primeira do Brasil em um Mundial Sub-20. Enquanto isso, a campeã Alemanha formava Marozsán, Popp, entre outras campeãs olímpicas no Rio. Detalhe interessante: a Colômbia chegou à semi do torneio.

Mundial Sub-17

As meninas do Brasil chegaram às quartas, mas caíram para uma Espanha que começava a surgir bem no futebol feminino a partir de sua base. É o que atualmente condiciona as espanholas a sonharem em ser elite na modalidade.

2012

Mundial Sub-20

Mais uma vez, as meninas do Brasil foram eliminadas na 1ª fase, dessa vez sem nenhuma vitória sequer. Ainda assim, dessa geração saiu Andressa Alves, Bia Zaneratto e Tayla, que disputaram a Copa do Mundo em 2019.

Mundial Sub-17

Mais uma vez chegamos às quartas, onde caímos para a Alemanha. A campeã do torneio foi a França. Aliás, algumas das meninas hoje estão com a seleção na Copa, onde a França é uma das grandes potências.

2014

Mundial Sub-20

O Brasil caiu em um grupo pesadíssimo com Alemanha e EUA, resultando em uma eliminação na fase de grupos com a 3ª pior campanha. No entanto, era uma boa geração que tinha Andressinha e Letícia Santos. A campeã Alemanha tem hoje em Sara Däbritz uma de suas principais craques.

Mundial Sub-17

O ponto crítico de quando avaliamos os dados do Brasil na base: as meninas do Brasil sequer se qualificaram para o torneio. E olha que temos uma predominância absoluta quando se trata de futebol feminino na América do Sul.

2016

Mundial Sub-20

O Brasil volta a avançar da fase de grupos, mas em 2° lugar e muito em função de um saldo absurdo contra Papua Nova Guiné. As meninas caíram pra uma fortíssima geração do Japão (guardem essa informação) nas quartas. Mesmo bem jovens à época, Geyse e Daiane Santos estiveram nesta Copa.

Mundial Sub-17

Novamente o Brasil cai na primeira fase. Apesar da queda precoce, essa geração tem um talento com tudo para ser um dos pilares da seleção pós-Marta, Cristiane e Formiga: a volante Angelina, hoje no Santos.

2018

Mundial Sub-20

Fez uma das piores campanhas do torneio, com direito a derrota para o México (até então sem expressão alguma na modalidade). E olha que tínhamos uma geração talentosa, com Geyse mais uma vez no Mundial. As meninas do Japão foram campeãs.

Mundial Sub-17

Virou rotina: queda na primeira fase. O Brasil também ficou atrás do México, vice-campeão do Mundial. O bom trabalho pode condicionar um México aparecendo bem no cenário da modalidade em alguns anos.

Correndo atrás do prejuízo

Esse período de disputa nos Mundiais de base nos ajuda a entender o surgimento e crescimento de algumas seleções no futebol feminino, sobretudo França e Espanha. Ademais, o bom trabalho de base ajudou na renovação das seleções da Alemanha e Estados Unidos, mantendo-as como potências.

Lembra que falamos do Japão? Pois bem. A prioridade da federação japonesa nessa Copa do Mundo era dar bagagem para as meninas visando o ouro olímpico em Tóquio. As atuais vice-campeões mundiais viajaram com o terceiro grupo mais jovem da Copa (média de 24 anos), aproveitando uma base de campeãs mundiais sub-20 (2018) e sub-17 (2014), além de vice no sub-17 (2016).

Já o Brasil, que outrora fazia parte da elite, hoje vive uma realidade de queda protocolar nas oitavas em Copas. Um futuro sem Marta, Cristiane e Formiga tende a ser no mínimo preocupante.

A modalidade cresceu, o núcleo de grandes seleções se expandiu e estamos cada vez mais pra trás. O futebol feminino brasileiro precisa de um trabalho sério e comprometido, e não há como começá-lo de outra forma senão na formação.

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