Por que Siakam é o MIP da temporada da NBA

Enquanto Harden, Giannis, George e Jokic nos fazem mudar de opinião todos os dias na briga pelo MVP, há uma disputa paralela por outros prêmios da NBA. Menos midiáticos, claro, mas que também geram boas discussões – e um grande reconhecimento. Entre eles, está o Most Improved Player (MIP), aquele jogador que mais evoluiu em relação à temporada anterior. Ainda estamos em fevereiro, mas é seguro dizer: ninguém merece mais este prêmio do que Pascal Siakam, do Toronto Raptors.

A curva de evolução do camaronês é simplesmente assustadora. Ele foi selecionado no final da primeira rodada do draft de 2016. Uma escolha surpreendente, pois nomes como Skal Labissière e Deyonta Davis eram melhores avaliados até então. Masai Ujiri acreditou no desconhecido. A escolha se provou mais do que acertada, mas não antes sem muita paciência.

Dura adaptação

Siakam teve a difícil missão de ser titular do Toronto logo na temporada de estreia. Foram 55 jogos em 2016-17 (38 como titular), a maior parte deles antes da chegada de Serge Ibaka na trade deadline.

Uma oportunidade que se converteu em tímidas médias de 4.2 pontos e 3.4 rebotes por jogo. Siakam até mostrou qualidades defendendo no garrafão, mas tinha um arsenal ofensivo limitadíssimo. Numa era em que os bigs precisam espaçar a quadra e saber chutar de fora para o ataque fluir, Siakam não oferecia nem uma coisa nem outra.

Após a chegada de Ibaka, Siakam foi mandado para a liga de desenvolvimento da NBA (G-League), onde ajudou o Raptors 905 a conquistar o título. O camaronês recuperou a confiança e foi um membro efetivo do primeiro time em 2017-18. Disputou 81 jogos, sendo cinco como titular.

As médias aumentaram (7.3 pontos e 4.5 rebotes), mas não de forma tão significativa. É claro, Siakam ainda estava em plena adaptação à velocidade e fisicalidade da liga. Mas, naquele momento, ninguém mais esperava que o camaronês fosse além de um role player.

Prazer, Pascal Siakam

Tudo mudou nesta temporada. Mudou, para começar, o técnico do Toronto Raptors. E uma convicção do novato Nick Nurse beneficiou diretamente Siakam: ele se recusava a colocar Ibaka e Valanciunas juntos em quadra. Na temporada anterior, com Dwane Casey, a dupla teve média de 20.5 minutos dividindo o garrafão.

O “vácuo” na posição 4 fez com que Siakam ganhasse a vaga de titular. Só que, dessa vez, Spicy P não aceitou ser coadjuvante.

Sua média de pontos mais do que dobrou (16.1 por jogo), com incríveis 55,1% de aproveitamento nos arremessos, além de 13 duplos-duplos.

Só nesta temporada, Siakam bateu o recorde de pontos da carreira SETE vezes, duas delas na última semana: 33 pontos contra o Atlanta Hawks e, na última quarta-feira (2), 44 pontos contra o Washington Wizards, com outro recorde pessoal: quatro bolas de 3 pontos.

Siakam e o melhor jogo de sua carreira, contra o Washington Wizards. Foto: Reprodução

Os segredos do sucesso

O camaronês parece um novo jogador. Seu repertório está cada vez mais polido, e poucos da sua altura possuem tanta habilidade. Isto lhe permite, por exemplo, iniciar os ataques do Toronto em muitos momentos do jogo – e suas decisões como ball handler no pick and roll são sempre muito criteriosas.

Siakam também se tornou uma ameaça no perímetro, além de possuir um movimento que já é sua assinatura: o giro no marcador para fazer a bandeja com facilidade em seguida. O spin de Siakam é como o stepback 3 de Luka Doncic, saca?

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Para melhorar, Siakam é um fit perfeito para as duas estrelas da franquia. Graças a Kyle Lowry, o ala-pivô é top-10 em pontos de contra-ataque. E quando a marcação dobra em Kawhi Leonard, Siakam normalmente é o homem livre que se oferece e castiga o adversário.

Com Siakam em quadra, o Toronto Raptors anota 114 pontos por 100 posses. Quando está no banco, a média do time cai para 103,4. Em fevereiro, Spicy P ostenta médias de 22.5 pontos, 7.7 rebotes e 2.3 assistências por jogo.

Por esta mudança meteórica de patamar, Siakam é o verdadeiro MIP da temporada. Há candidatos legítimos (Hield, Harrell, John Collins, Malik Beasley, entre outros), mas ninguém evoluiu tanto quanto o jogador do Raptors.

Sonho de família

É ainda mais assustador pensar que, ao contrário da história de outros jogadores, habituados com o basquete desde os primeiros passos, Siakam só enveredou pelo esporte na adolescência – sua paixão era o futebol. Naquele momento, os planos do pai para o garoto eram outros: fazê-lo um padre.

Mas o pai de Siakam também sonhava com um filho jogando na NBA. Os três irmãos mais velhos de Siakam jogavam em escolas da NCAA, mas nenhum chegou lá. Ironia do destino, o menino que sequer assistia NBA foi quem virou um jogador da liga. A forma como isso aconteceu daria um belo roteiro de filme.

O pai de Siakam morreu em um acidente de carro em outubro de 2014. Não teve a chance de ver o filho realizar o seu sonho. E quando Siakam fez 44 pontos contra o Wizards, suas primeiras palavras após o jogo foram: “eu só queria que meu pai estivesse aqui para me ver”. Em compensação, o mundo inteiro é testemunha da maior evolução de um jogador da NBA na temporada.

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