O que o título brasileiro da Ferroviária tem a ensinar

Corinthians e Ferroviária fizeram aquela que, provavelmente, foi a melhor final da história do Campeonato Brasileiro Feminino. Equipes com propostas distintas, porém muito bem executadas e que proporcionaram 180 minutos de altíssimo nível. Nos pênaltis, o título ficou com as Guerreiras Grenás. Um título simbólico, dada a metamorfose vivida pelo futebol feminino brasileiro em 2019.

Simbólico porque, neste ano, os olhos se voltaram para os grandes clubes que ingressaram no futebol feminino, em virtude da obrigatoriedade imposta pela CBF. São Paulo, Palmeiras e Cruzeiro foram algumas das equipes de massa que retornaram à modalidade, o que obviamente engrandece o esporte nacional.

Com a chegada dos grandes, houve quem decretasse a morte dos pequenos. Uma análise distorcida por dois motivos: em primeiro lugar, porque um bom trabalho no futebol feminino evidencia-se muito mais pelo comprometimento com o projeto do que pelo orçamento em si; além disso, quando falamos dos “grandes” e “pequenos”, precisamos nos desprender da ótica do futebol dos homens.

Guerreiras de muita história

A Ferroviária é uma gigante do futebol feminino. Um clube pioneiro, que acredita na modalidade há quase 20 anos, mantendo um projeto ininterrupto desde 2001. Um clube que já ganhou Campeonato Paulista, Copa do Brasil e agora é o primeiro a ser bicampeão brasileiro.

O futebol feminino hoje é um mercado que precisa dos clubes de camisa, mas também precisa de clubes com o comprometimento da Ferroviária. E na esteira da Ferrinha, há outros tantos clubes sem pompa, mas com muita história, que continuarão firmes e fortes. Como o Kindermann, semifinalista desta edição. Ou o São José, único brasileiro campeão mundial. Ou o Iranduba, que fez um Brasileirão mediano, mas foi semifinalista nacional no sub-18.

Logo, uma das lições do título da Ferroviária é bem direta: sempre haverá espaço para quem leva a modalidade a sério, independentemente do tamanho da instituição.

O segredo da Ferroviária

As Guerreiras Grenás se valem da expertise na modalidade para continuarem competindo em igualdade de condições. No início do ano, fizeram um movimento decisivo para a conquista do título: buscaram a treinadora Tatiele Silveira, de 39 anos, que estava sem clube.

Tatiele foi figura central na moldagem do novo projeto do Internacional no futebol feminino. Um ciclo que, pasmem, se interrompeu quando ela somava 34 vitórias em 40 jogos no comando das Gurias Coloradas.

Após a perda do Gauchão nos pênaltis para o Grêmio, o Inter colocou Tatiele para fora do clube. Inteligentemente, a Ferroviária foi buscá-la no mês seguinte. E os frutos foram colhidos até mesmo além do que era esperado para um primeiro ano de trabalho.

A Ferrinha também se vale de um ótimo trabalho de base para manter o nível do time principal. Não à toa, 40% do elenco atual é formado por jogadoras que passaram pelas categorias inferiores do clube.

Passado, presente e futuro

Oito das 23 convocadas pela seleção brasileira na última Copa do Mundo passaram pela Ferroviária. Neste ano, o clube de Araraquara colocou mais uma na amarelinha: a camisa 10 Aline Milene, uma das craques do Brasileirão. Houve quem ironizasse a surpreendente escolha de Pia Sundhage, mas o tempo não custou a dar razão à sueca.

Além de Aline, também brilhou a estrela da goleira Luciana. Foi principalmente por causa dela que a Ferroviária, em 180 minutos, segurou um time que vinha de 34 vitórias consecutivas. Um feito que não vai entrar para o livro dos recordes, mas que definitivamente também foi histórico.

A Ferroviária é o melhor exemplo para os ditos grandes (hoje minoria) que ainda resistem a se comprometer verdadeiramente com o futebol feminino, sob o argumento de que a modalidade “não dá lucro”.

Oras, isso é inverter o processo. Construir um projeto vencedor e rentável exige primeiro dedicação e conhecimento. Por este motivo, a Ferroviária é o passado, o presente e também será parte do futuro do futebol feminino brasileiro. Parabéns, Guerreiras Grenás!

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