Giroud, um ‘mal necessário’ para a França campeã do mundo

A França é a campeã mais jovem das últimas dez Copas do Mundo. Mas há um ponto chave, um turning point até contraditório para Didier Deschamps ter encontrado o melhor time na Rússia: as entradas dos trintões Matuidi e Giroud como titulares a partir do segundo jogo. Com um núcleo jovem e abundante de talento, a França também precisou de hierarquia. O agora campeão do mundo Giroud somou 546 minutos na Copa, não fez nenhum gol e só teve uma finalização certa. Mas os números não explicam o mais importante: Giroud foi um ‘mal necessário’ para o time campeão.

Antes de entrar na discussão do papel do ‘9’, é preciso contextualizar o que aconteceu com a França a partir do primeiro jogo. Deschamps apostou na estreia em um time mais leve, com Tolisso no meio e Dembélé jogando aberto, com Griezmann mais próximo do gol. A França passou apuros contra a Austrália e só saiu do sufoco a partir da entrada de seu centroavante. Com dez minutos em campo, foi ele quem ofereceu apoio e abriu espaço para Pogba infiltrar e marcar o gol da vitória.

No jogo seguinte, contra o Peru – e já com Matuidi e Giroud como titulares -, a França fez um primeiro tempo avassalador. Novamente com participação de Giroud. Primeiro, ao seu estilo, ele ganhou uma disputa aérea que permitiu uma finalização de Griezmann. Mais tarde, uma finalização do próprio Giroud resultaria no gol de Mbappé.

Mais do que recorrer à hierarquia, Deschamps foi inteligente em entender como Giroud poderia melhorar seu time. Ele não foi uma referência para os franceses levantarem bolas na área – como foi a intenção da Alemanha com Mario Gomez, por exemplo. Giroud foi a engenharia para potencializar o melhor de Mbappé e Griezmann na Copa. Seus apoios e duelos aéreos contra os zagueiros adversários permitiram que Griezmann recebesse a bola sempre de frente e facilitaram as rupturas de Kylian. No quarto gol contra a Argentina, é Giroud quem sai da área e encontra Mbappé em velocidade, de cara para finalizar.

Contra a Bélgica, na semifinal, talvez o melhor jogo de Giroud na Copa: ganhou sete de dez duelos pessoais, finalizou quatro vezes e desarmou em três oportunidades. As intenções de Deschamps se baseavam em extrair o melhor de seus craques, notoriamente Pogba, Griezmann e Mbappé. E para isso, Giroud foi um facilitador. É pouco? Não acho. E no contexto francês, Giroud jamais precisou estar na área para finalizar e empilhar gols.

Deschamps foi preciso após o jogo contra a Austrália: “Você descobre o quão importante é Olivier Giroud quando ele não está lá”. Pavard já mencionou o centroavante como alguém que “escolhe as palavras certas antes dos jogos para nos levar adiante”, o que também denota um espírito de liderança diante de um grupo tão jovem. Além do mais, Giroud não é bem um atacante que não sabe fazer gols: ele tem quase 200 na carreira e é o artilheiro da seleção francesa no atual grupo (31 gols).

Afinal, qual a função do ‘9’?

Finalmente, a questão traz à tona o verdadeiro papel do centroavante. Cuidado com as generalizações: Giroud, por exemplo, está sendo associado à Gabriel Jesus simplesmente por ser um 9 que sai da Copa sem fazer gols. Não compre esse discurso. As intenções com cada um eram absolutamente diferentes, e o perfil de ambos mais ainda.

E Jesus, mesmo reconhecidamente como um jogador muito mais completo que Giroud, não entregou na Rússia o que o francês conseguiu: suas tentativas como pivô foram falhas e o brasileiro perdeu muitas posses. Além do mais, diferentemente do contexto da França, o Brasil precisava dos gols de Jesus – tanto que chegou à Copa como o artilheiro da Era Tite -, mas ele também esteve impreciso nas conclusões. Pode ter sentido o peso da Copa, e Roberto Firmino certamente entregaria mais na mesma função.

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Esqueça a máxima do ‘centroavante vive de gols’. Ela só vale se o melhor de sua equipe estiver dentro da área. Nem todos dispõem de um Kane, de um Lukaku, de um Suárez – e mesmo estes entregam várias outras coisas. Há espaço para qualquer proposta, e no futebol não há certo ou errado. Mas a França nos ensina uma lição: se você joga em função de seus melhores, você está no caminho certo. Nem que para isso você precise de um Olivier Giroud para fazer o trabalho sujo.

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