Felipão, Luxemburgo e o eterno bode expiatório

Luiz Felipe Scolari e Vanderlei Luxemburgo voltaram aos holofotes nos últimos dias. Felipão voltou ao Brasil para assumir o Palmeiras e Luxa esteve próximo de fechar com o Santos. Personagens que alguns insistem em ‘varrer’ para o passado, em nome da dita ‘revolução’ do futebol brasileiro. Há uma insatisfação justificável neste discurso: o futebol brasileiro é retrógrado, preso aos males que nos perseguem. Mas isso é uma questão muito mais complexa. Veja bem, não é errado olhar para técnicos multicampeões de nossa história: o erro é a forma como são vistos. Explico: se Felipão e Luxa ainda são nomes recorrentes aos nossos dirigentes, infelizmente isso se deve aos motivos errados.

Entendo quem não aprecie os trabalhos de Scolari e Vanderlei. São passíveis de críticas como qualquer um. Mas muitas vezes, a aversão está relacionada ao discurso do ‘atraso’. Não sou hipócrita, eu mesmo já reproduzi este pensamento. Hoje, com a mente mais aberta, vejo que há sim espaço para nomes como Felipão e Luxemburgo. Cada um com suas virtudes, suas bagagens, seus modos de pensar futebol. Mas vamos ser sinceros: quando se observa os ponderamentos de Palmeiras e Santos ao chegar nesses respectivos nomes (com o Palmeiras sendo o único a concretizar a negociação), estes fatores parecem ter sido meros detalhes.

O Palmeiras revela um cenário visto inúmeras vezes no futebol brasileiro: é véspera de eleição, o que naturalmente significa uma bomba relógio interna. Há pressão por resultados de todos os lados, e cobra-se uma ‘resposta’ em um momento mais delicado. Encurralada, a atual gestão do Palmeiras viu em Felipão um ‘escudo’. Alguém capaz de domar as estrelas, acalmar o vestiário e botar panos quentes na pressão política.

Do outro lado, ainda não é ano de eleição no Santos, mas os maus resultados criaram problemas para o presidente José Carlos Peres. Como se não bastasse, a escolha do Palmeiras por Scolari resultou em uma pressão política ainda maior. Alguns entenderam que havia a necessidade de ‘responder à altura’ e pressionaram por Luxemburgo, o que também seria uma espécie de blindagem. Peres, que pessoalmente nunca aprovou o nome de Luxa, acabou ganhando a queda de braço e Cuca foi anunciado como novo treinador. O presidente também negociou com Zé Ricardo e sondou Juan Carlos Osorio.

Mas será que Felipão e Luxemburgo se resumem a isso? Meros escudos, figuras para colocar ordem no vestiário e ‘ver no que dá’ em termos de resultados? É claro que não. E a partir daí é fácil reconhecer onde está o verdadeiro atraso: o de quem detém o poder no nosso futebol. Sem generalizar, mas não é difícil perceber quem nos empurra para o fundo do poço.

Scolari e Luxa ainda podem agregar muito ao nosso futebol. Felipão vem de um ótimo trabalho na China, e Luxemburgo ao menos continuará nos brindando com sua vertente youtuber – brincadeiras à parte, seu canal é uma grande fonte de conhecimento. Com certeza não seriam minha primeira opção se eu tivesse um clube, mas podem entregar muita coisa em projetos que compreendam suas formas de fazer futebol. E é desta forma que deveriam ser lembrados, não como cortina de fumaça.

Felipão e Luxemburgo não podem ser vistos como a causa de um futebol brasileiro parado no tempo. No máximo são consequência de quem insiste em obstruir a nossa evolução. Há muito a ser feito para que, de fato, tenhamos um futebol bem jogado no nosso país. E no contexto certo, Felipão e Luxa podem ser alicerces para isso, e não barreiras. Do contrário, serão apenas vítimas de um sistema cada vez mais falido.

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