Croácia, Kevin Anderson e a história sendo escrita em nove horas

Em poucos dias de lançamento do site (aliás, muito obrigado pelas visitas!), tenho falado bastante aqui do poder do esporte em desconstruir narrativas prontas. E este 11 de julho de 2018 materializou o inimaginável de uma forma muito mais intensa, aquela que nos faz lembrar porque a gente ama esse tal de esporte.

Nove horas. O que pode acontecer em nove horas? Hoje, vimos a história de dois esportes sendo reescritas. Em Wimbledon, uma das maiores viradas da história dos Grand Slams, em que o derrotado, curiosamente, é simplesmente um dos melhores de todos os tempos. Numa batalha de mais de quatro horas, o sul-africano Kevin Anderson virou um jogo em que perdia por 2 sets a 0 de Roger Federer, octacampeão do torneio. Horas depois, em Moscou, a Croácia também virou um jogo, na prorrogação, para chegar na sua primeira final de Copa do Mundo em todos os tempos.

Kevin Anderson e uma das maiores viradas da história recente do tênis. Foto: Reprodução/Wimbledon.com

A África do Sul é uma nação de mais de 50 milhões de habitantes. Mas no esporte, sua representatividade atualmente reside em Kevin Anderson, tenista top-10 do mundo. Mas Anderson chegou às quartas de final de Wimbledon sem nunca ter vencido Roger Federer na carreira, bem como nunca conquistou um Grand Slam.

O que terminou como um roteiro épico parecia seguir um simples script. Era só um obstáculo a mais para Federer, que abriu 2 a 0 e dava mais um passo rumo ao seu nono título na grama sagrada. Mas este não era pra ser um dia qualquer. E quando Federer perdeu um match point no terceiro set…o resto é história.

Não eram “só” dois sets atrás e um match point contra. Era do outro lado um Federer, aos 36 anos, jogando um tênis finíssimo em todo o torneio, com um aproveitamento de primeiro saque irretocável. Mas Kevin Anderson foi uma fortaleza mental. Era sabido que o sul-africano apostaria tudo em seu saque e em matar os pontos rapidamente. Mas ele foi muito além dos 28 aces. Também cresceu nos rallies, jogando no fundo, levando Roger ao limite até fechar o quinto set em 13-11. Uma reviravolta a ser lembrada por muito tempo.

Parte 2: a virada em Moscou

Mais tarde, o futebol também testemunharia um capítulo histórico. E o protagonista foi um país bem menor que a África do Sul: a Croácia, com uma população 12 vezes menor – quase igual a do meu Amazonas -, mas abundante de grandes talentos. Só que parecia difícil superar a campanha de 1998, quando a geração de Suker levou os croatas às semifinais. Mas o time regido por Luka Modric foi além, e pela primeira vez na história, está numa final de Copa do Mundo.

Mario Mandzukic, o herói da epopeia croata. Foto: Reprodução/Fifa

Assim como Kevin Anderson, a Croácia também começou perdendo. Um duro golpe logo nos primeiros minutos. Uma seleção que vinha de duas prorrogações teria de superar o peso mental e o das próprias pernas. Mas foi um outro peso que guiou a seleção de Zlatko Dalic: a de uma nação nas costas, aquela que só a Copa é capaz de proporcionar e mover o impossível.

A Croácia, acima de tudo, jogou com o coração. Ivan Perisic, protagonista de uma atuação memorável – daquelas de se entender porque José Mourinho é obcecado para tê-lo -, fez o gol de empate. Vrsaljko, lateral que era dúvida por conta de uma lesão no joelho esquerdo, evitou um gol da Inglaterra quase em cima da linha. E Mario Mandzukic, o homem dos jogos importantes, fez na prorrogação o gol que transformou a ilusão croata em realidade.

Croácia e Kevin Anderson não estavam na conversa entre os favoritos. Eram, sabidamente, um duro obstáculo para quem se atrevesse a chegar longe. Mas eles se recusaram a ser coadjuvantes. Cada um, à sua maneira, desafiou a história. E já fizeram história. No próximo sábado, a Croácia jogará sua primeira final de Copa; Anderson, se passar por John Isner, disputará sua primeira final de Wimbledon. No mesmo dia, no mesmo horário. Independentemente do que acontecer, as nove horas de hoje jamais serão esquecidas.

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