Copa das goleiras e a discussão sobre o tamanho do gol

Entre polêmicas do VAR, recordes batidos e o aumento do interesse pelo futebol feminino, existe algo que está roubando a cena na Copa do Mundo: a sequência de grandes atuações de goleiras.

Desde Vanina Correa, passando por Christiane Endler e chegando até Peng Shimeng, as arqueiras se tornaram protagonistas do Mundial. Pode parecer algo banal, mas é simbólico. Afinal, elas estão diretamente envolvidas em um debate incessante: a discussão sobre o tamanho do gol no futebol feminino.

Goleiras de diferentes gerações assumiram o protagonismo na França. A começar pela mais experiente delas, a argentina Vanina Correa, de 35 anos. Mãe de gêmeos, Correa se afastou do futebol por seis anos, voltou em meados de 2017 e teve uma exibição heroica contra a Inglaterra, com um pênalti defendido e seis defesas no total.

Outra sul-americana de destaque embaixo das traves é a chilena Christiane Endler. Contra a melhor seleção do mundo, os Estados Unidos, Endler também fez seis defesas, incluindo a mais bonita desta Copa.

 

Também não há como não falar da chinesa Shimeng Peng. Com uma envergadura privilegiada (1,82 m) e um reflexo apurado, a jovem de 21 anos protagonizou uma das melhores atuações individuais da Copa: nove defesas contra a Espanha (0-0). Mesmo diante de grandes adversárias, como a própria Espanha e a Alemanha, Peng concedeu apenas um gol em três partidas.

Tamanho do gol no futebol feminino

No entanto, tais atuações não foram suficientes para silenciar o debate em torno do tamanho do gol. A discussão reacendeu quando a treinadora do Chelsea, Emma Hayes, foi categórica ao defender dimensões diferentes porque os gols “são um pouco grandes demais” para as goleiras. No entanto, é certo dizer que a voz de Hayes é dissonante no meio.

Para nos aprofundar neste debate, o Torcedor de Sofá conversou com Felipe França, preparador de goleiras do Avaí/Kindermann. Ele trabalha com Bárbara, goleira titular da seleção brasileira, há três anos e meio.

Sem meias palavras, França é contra a redução da trave. “Há muito tempo se fala sobre isso, mas não concordo. A gente trabalha valências físicas, a potência para a goleira chegar do ponto inicial ao outro na trave. Está havendo uma grande evolução no futebol feminino”, defende.

Para Felipe França, a questão crucial não diz respeito ao tamanho do gol, mas sim à necessidade de um trabalho de base. “Hoje em dia, o menino com 12 ou 13 anos passa numa avaliação, até mesmo numa escolinha, e tem contato com um profissional que vai orientar a técnica correta, a mecânica do movimento para chegar na bola. Já as meninas muitas vezes só têm esse contato quando chegam no adulto”, explica França.

“Agora com a entrada da base, a criação do sub-18, as coisas estão melhorando. Mas se for pegar a geração da Bárbara, da Andreia Suntaque, elas só tinham contato com preparação de goleiras na seleção”.

A evolução de Bárbara

Tanto tempo de convivência faz com que França tenha propriedade ao falar de Bárbara. “No começo, a Bárbara dizia que o gol era muito grande pra ela. Com o passar do tempo ela foi aperfeiçoando, aquele monstro já saiu da cabeça dela. O menino quando começa a jogar também tem essa mentalidade. A criança olha para o gol e acha muito grande. Mas com o decorrer do trabalho, as especificidades técnicas e físicas, ele consegue chegar na bola”.

Portanto, ainda que haja uma diferença comprovada de média de altura entre homens e mulheres, o preparador do Kindermann não enxerga tal fator como determinante. Ele cita uma própria defesa de Bárbara na Copa para refutar a defesa da diminuição da trave. “Se você ver o primeiro tempo contra a Jamaica, ela faz uma defesa em que ela até passa do gol”, relembra.

 

“Sempre que entram nesse assunto, eu falo para acompanharem os treinos. Os testes físicos, os treinos de saltos. Se a goleira toma um gol de cobertura, esse erro de posicionamento também pode ser psicológico. É igual no masculino. Imagina se a cada falha dissessem que precisa diminuir a trave?”.

Desta forma, fica claro que a evolução do futebol feminino perpassa por outras questões mais urgentes, como a fase de iniciação. E diante de goleiras cada vez mais capacitadas, como a Copa do Mundo evidencia, a modalidade vislumbra um futuro ainda mais promissor na quebra de paradigmas e aumento da competitividade.

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