A exibição de Marquinhos e o impacto para Tite

O Teatro dos Sonhos parou para ver a orquestra dirigida por Thomas Tuchel. Foi uma mistura de ritmos. Verratti ficou encarregado da música clássica no meio-campo. Di María e Mbappé fizeram o rock and roll nos metros finais. Thiago Silva trouxe a elegância do jazz para defender a própria área. Mas um outro brasileiro ditou um ritmo inusitado para o espetáculo: Marquinhos.

Digamos que Marquinhos tenha trazido os passos do forró. E como um bom forró se dança agarradinho, Marquinhos encontrou um parceiro no time adversário: Paul Pogba. Os dois não se desgrudaram. A bem da verdade, foi Marquinhos quem não desgrudou de Pogba. O brasileiro parecia à vontade com os passos. O francês, nem um pouco. Provavelmente é daqueles que pisariam no pé na hora da dança.

Brincadeiras à parte, a exibição de Marquinhos como volante em Old Trafford foi enorme. O brasileiro demonstrou muito critério com a bola, muitas vezes encontrando soluções para tocar de primeira enquanto esteve pressionado. Um contexto jamais imaginado em um jogo de Champions.

Sem a bola, o ponto alto de sua atuação: o brasileiro não deixou Pogba respirar. O francês não tinha tempo nem espaço, nem mesmo quando retornava à própria área pra buscar jogo.

Com Solskjaer no comando do United, Pogba tinha média de 56 passes por jogo. Contra o PSG, foram apenas 30. E a razão disso foi a marcação individual de Marquinhos, planejada para anular completamente o campeão do mundo do jogo. Deu certo.

E Marquinhos na seleção?

Não demorou para que surgissem comentários eufóricos nas redes sociais, do tipo “e se Marquinhos tivesse sido o volante titular contra a Bélgica?”. Vamos com calma. Se isso tivesse acontecido, Tite seria massacrado no país em que a improvisação é vista como coisa de “pardal” e a marcação individual como “coisa do passado”.

De toda forma, o questionamento de uma maneira mais ampla é válido: Marquinhos teria futuro como volante na seleção brasileira?

Primeiro, é preciso contextualizar. Os de memória boa lembrarão que o defensor já foi improvisado como volante por Tite no Corinthians, inclusive contra o Palmeiras, em 2012, quando os reservas corintianos venceram o clássico pelo Brasileirão.

Óbvio, aquele garoto que foi vendido a preço de banana pelo Corinthians amadureceu. E como todos sabiam – menos a diretoria corintiana, aparentemente -, virou um jogador de elite.

O arquiteto da versão pivote de Marquinhos é Thomas Tuchel. Um experimento que, apesar das críticas iniciais, já leva meses, motivado pela escassez do plantel do PSG no setor.

Para o jogo contra o United, a escassez já não era mais problema: Tuchel tinha à disposição o recém-chegado Leandro Paredes, que custou a bagatela de 47 milhões de euros. O alemão não abriu mão de suas convicções. E o tempo lhe deu razão.

Nem problema, nem solução

Dito isso, a seleção brasileira oferece um contexto diferente. Thiago Silva e Miranda completam 35 anos em 2019, e Marquinhos parece destinado a ser o dono da zaga quando ambos passarem o bastão.

Não obstante, a seleção já tem Casemiro. E provavelmente voltará a ter Fernandinho, mesmo porque ninguém se firmou como reserva na função. Porém, em um contexto específico, a experiência de Marquinhos no meio oferece uma opção a mais para Tite encontrar soluções criativas.

É claro que, para acomodá-lo como ‘5’ na seleção em uma eventual ausência de Casemiro, Tite teria de fazer ajustes (táticos, para começar). Mas com Arthur à disposição, seria possível reproduzir algo parecido com a combinação entre Marquinhos e Verratti.

Ninguém sabe por quanto tempo Marquinhos jogará regularmente como volante, especialmente se Julian Weigl chegar ao PSG na próxima temporada. Mas o brasileiro mostrou que é capaz. E se Tite já sabia, agora tem ainda mais certeza que pode contar com o ex-pupilo para qualquer obra.

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